The Chosen e outras séries que estão convertendo até Ateus

Em dezembro de 2025, o ator Jonathan Roumie, que interpreta Jesus em The Chosen, foi ao programa The View, da ABC, e disse que a série atinge gente no mundo inteiro, inclusive “ateus de longa data” que acabaram cristãos. O trecho rodou os sites de notícias com a manchete mais curta possível: ateus estão se convertendo por causa de uma série. A manchete cabe numa linha, mas a prova que a sustenta, até agora, cabe em dois nomes que ninguém conhece.

O que foi dito, de fato

Roumie contou o caso de dois fãs que lhe escreveram pelo Instagram. Ambos se descreveram como ateus sem interesse algum em Deus, alguém lhes enviou a série, e depois disso passaram a ler a Bíblia, foram a uma igreja e se converteram. Ele resumiu com a frase “se Deus quiser, Ele vai te encontrar”, numa entrevista em que também divulgava um desafio de oração do Advento e falava das filmagens da sexta temporada.

Há ali dois relatos, sem nomes e sem detalhes que se possa checar, nenhuma pesquisa e nenhum número de convertidos. Não quer dizer que os relatos sejam falsos. Quer dizer que a palavra “converter”, no plural e como tendência, ainda não foi demonstrada por ninguém.

O que os números dizem

Os dados que existem tratam de audiência, e vêm dos próprios produtores. Em 2024, a vice-presidente de conteúdo original, Katherine Warnock, contou que uma pesquisa feita pela equipe da série indicava que cerca de 30% dos espectadores eram curiosos sobre o cristianismo ou não tinham fé cristã alguma. Mais da metade eram cristãos praticantes ou culturais. A amostra e o método não foram divulgados.

Em 2025, os produtores estimaram cerca de 280 milhões de espectadores no mundo, um terço deles sem religião. Fazendo a conta, seriam perto de 93 milhões de pessoas de fora da fé, se a estimativa estiver certa. Assistir, porém, é um passo bem menor do que mudar de crença, e os dados não medem esse segundo passo.

Um modelo de negócio que ajuda a entender o alcance

A série nasceu financiada pelo público. A primeira rodada de financiamento coletivo levantou US$ 11 milhões de mais de 16 mil investidores, que ganharam participação na empresa, e a segunda temporada reuniu mais de US$ 6 milhões de mais de 300 mil contribuintes. Desde 2020, os episódios são gratuitos no aplicativo da série, e o dinheiro vem de cinema, licenciamento, produtos e doações dos espectadores.

Em fevereiro de 2025, a Amazon MGM Studios e a 5&2 Studios fecharam um acordo para streaming e cinema das temporadas seguintes. Gratuidade, boca a boca e uma comunidade que ajudou a pagar a produção explicam bem como a série chegou a gente que não frequenta igreja, mesmo sem que haja um único dado sobre mudança de fé.

A crítica que vem de dentro

O ceticismo também aparece entre cristãos. Em março de 2025, o apresentador Todd Friel, do Wretched Radio, criticou a série e o público dela, dizendo que quase ninguém confere a Bíblia e passa a acreditar no que vê na tela. O criador, Dallas Jenkins, respondeu em vídeo que a série não substitui as Escrituras, que as usa como fonte principal e que a acusação é falsa, citando dezenas de milhares de comentários recebidos. Antes disso, ele já tinha rebatido a acusação de que o roteiro citaria o Livro de Mórmon.

A manchete da resposta dizia que os fãs leem a Bíblia “mais do que nunca”, mas a matéria não trouxe número algum.

A sexta temporada chega em duas semanas

The Chosen estreia a sexta temporada no Prime Video em 15 de novembro de 2026, com três dos seis episódios liberados no primeiro dia e um novo por semana até 6 de dezembro. A temporada retrata as 24 horas da Sexta-feira Santa, até a crucificação, filmada em Matera, na Itália, em junho de 2025. O lançamento inclui os Estados Unidos, o Reino Unido, a África Subsaariana e a América Latina. Um filme final deve chegar aos cinemas em 12 de março de 2027.

A ordem se inverte em relação à quinta temporada, cujos episódios passaram primeiro pelas telas, em março e abril de 2025, e só chegaram ao Prime Video em 15 de junho.

Feleciano Murene
Jornalista com mais de 5 anos de carreira, sempre trabalhando para manter os seus leitores sempre muito bem informados sobre o que acontece no mundo. Apaixonado por carros e tecnologia, vive em um multiverso.